Margarina

A Farsa da Margarina

Eu nem ia postar nada essa semana, mas recebi o texto abaixo no meu Facebook, e não resisti:

<< A MARGARINA, um produto a eliminar

A margarina foi originalmente fabricada para engordar perús. Mas quando os perús começaram a morrer por causa dela, as pessoas que tinham investido na sua pesquisa começaram a procurar uma utilização alternativa que lhes permitisse, no mínimo, recuperar o investimento.
Foi nessa altura que alguém se lembrou de juntar um corante amarelo àquela que era, até aí, uma substância branca, tornando-a mais apetecível para consumo humano e apresentá-la no mercado como um substituto da manteiga.
Mas será que sabe qual é realmente a diferença entre a margarina e a manteiga?
Vejamos:
– Ambas têm a mesma quantidade de calorias.
– A manteiga tem um pouco mais de gorduras saturadas (8 gramas contra 5 gramas da margarina).
– De acordo com um estudo da Harvard Medical, comer margarina pode aumentar em 53% as doenças cardíacas em mulheres, relativamente
àquelas que comem a mesma quantidade de manteiga.
A manteiga:
– Aumenta a absorção de nutrientes presentes em outros alimentos.
– Traz mais benefícios nutricionais do que a margarina (e os que a margarina tem foram adicionados artificialmente!).
– É mais saborosa que a margarina e pode melhorar o sabor de outros alimentos.
– Existe há séculos e a margarina há menos de 100 anos.
A margarina:
– Triplica risco de doença cardíaca coronária…
– Aumenta o colesterol total e o LDL (este é o colesterol ruim) e diminui o colesterol HDL (o colesterol bom).
– Aumenta o risco de cancro em 500%.
– Reduz a qualidade do leite materno.
– Diminui a resposta imunológica.
– Diminui a resposta à insulina.
E, finalmente, a parte mais interessante e perturbadora:
A margarina está a uma molécula de ser… plástico. E possui 27 ingredientes que existem na…………….tinta de pintar.
Se não está convencido faça a seguinte experiência:
Abra uma embalagem de margarina e deixe-a aberta num local à sombra durante alguns dias. Vai poder constatar algumas coisas muito interessantes:
1.º Não há moscas! (isso deve querer dizer alguma coisa!!!)
2.º A margarina não mostra sinais de apodrecimento, decomposição ou alteração no cheiro.
3.º Não tem bolor. Nada se desenvolve ou cresce nela.
Ou seja, nem as moscas nem os mais pequenos microrganismos se interessam por aquilo. Não há ali nada de bom.
Porquê? Bom, porque a margarina é quase plástico.
Exclua este produto de sua vida. A sua saúde agradece.
Por favor, partilhe esta informação para os seus contatos. A maioria das pessoas consome este produto inocentemente >>

 


Esse texto está tão delicioso que eu vou saboreá-lo aos poucos. Vamos lá:

1) Margarina criada para alimentar perus (sem acento, minha gente!): Falso. A margarina foi criada em 1869 pelo químico francês Hippolyte Mège Mouriès, como resposta a um concurso criado pelo imperador Napoleão III, que ofereceu um prêmio para quem conseguisse desenvolver uma alternativa satisfatória para a manteiga, que pudesse ser consumida pelas forças armadas e as classes sociais mais baixas. Posteriormente, a patente foi vendida para uma companhia holandesa que viria a se tornar a Unilever e, bem, vocês já sabem o final dessa história. Na verdade, muitos dos alimentos industrializados têm uma origem semelhante. Por outro lado, nem todos os alimentos foram concebidos inicialmente para consumo humano. A barra de cereais, por exemplo, foi criada para alimentar passarinhos, e não há nenhum problema nisso.

Já no caso dos perus, esses devem ser alimentados com rações contendo principalmente carboidratos e proteínas, assim como a maioria das aves domésticas. Na verdade, utilizamos o termo “engordar” de forma errada, já que na verdade a ave deve ganhar massa muscular, para que tenha maior conteúdo de carne. Ou seja, se você alimentar o peru (ou qualquer ser vivo) exclusivamente com margarina, que é praticamente somente gordura, ele irá morrer mesmo. Fico aqui imaginando um produtor besta ao ponto de chegar a fazer isso e, ao mesmo tempo, inteligente o suficiente (praticamente um gênio do mal) para depois ter tido a brilhante ideia de vender isso para consumidores humanos passarem no pão.

2) Comparação entre manteiga e margarina: aqui aparecem milhares de dados sem nenhuma fonte. As propriedades nutricionais das duas irão variar bastante de marca para marca (vocês podem ver um exemplo de comparação aqui). Resumindo a ópera: apenas a manteiga apresenta colesterol (por ser de origem animal), e ela contém mais gorduras saturadas que a margarina. Já essa apresenta mais gorduras trans. Ou seja, o consumo das duas em excesso irá gerar aumento do colesterol ruim e todos os problemas que podem decorrer disso.

O que me chamou a atenção foi a parte do estudo de Harvard. Eu fui conferir e esse estudo é dos anos 80, uma época em que as margarinas tinham 30% de gorduras trans, a qual ainda não tinha sido estudada por completo. Depois de descobertos os efeitos nocivos da alta ingestão desse tipo de gordura à saúde, as indústrias reduziram essa proporção para abaixo de 10%, sendo que é possível encontrar marcas que fornecem produtos com menos de 1%. Acho importante ressaltar que a maior incidência de doenças cardíacas (e outros problemas relativos ao colesterol) está associada à gordura trans e não à margarina per seLembrando também que vários outros produtos apresentam esse tipo de gordura, incluindo biscoitos, bolos, massas, sorvetes, etc.

3) Meu benefício é mais benéfico que o seu: Também não encontrei esses milagres da manteiga citados pelo autor em nenhuma fonte. Mas queria chamar atenção para o seguinte fato: um nutriente ser adicionado a um alimento não o faz menos benéfico do que se ocorresse naturalmente. Aliás, adicionam-se diversos minerais e vitaminas em alimentos do dia-a-dia para suprir sua carência na população – exemplos: ferro e ácido fólico na farinha de trigo; iodo no sal; flúor na água; entre outros – e não vejo ninguém desmerecendo esses alimentos e pedindo para trocá-los por outros que tenham “benefícios naturais”.

Já o sabor é uma questão pessoal – eu, pessoalmente, também prefiro a manteiga – e não tem relação nenhuma com a nutrição e muito menos com segurança de um alimento. O mesmo se aplica para o fato de um alimento existir há séculos. Se fosse assim, ninguém deveria usar celulares ou carros, já que foram desenvolvidos muito recentemente. É o tipo de argumento que não tem sentido algum.

4) A margarina está a uma molécula de ser plástico: essa é a minha parte favorita. Sabia que a água está a apenas uma molécula de ser solução de ácido clorídrico concentrada? É verdade, só falta a molécula de HCl. Aliás, está ainda mais próxima de ser água oxigenada, só falta um átomo de oxigênio. Sabem o que isso tudo quer dizer? Nada. Nós não medimos as substâncias por “distância de quantas moléculas” de serem outras, já que isso não faz o menor sentido quimicamente. Um único átomo pode alterar completamente as propriedades – e a periculosidade – de um composto.

O mesmo se aplica para os 27 ingredientes da tinta de pintar (aliás, tem outro tipo de tinta?). Lembrando que tanto o plástico quanto a tinta são polímeros e podem ser milhares de compostos orgânicos diferentes, e muitos deles têm estrutura semelhante a alimentos sim, já que proteínas, carboidratos e gorduras também são polímeros  (inclusive, os primeiros plásticos e tintas eram feitos de leite). Pegando esse gancho, queria deixar claro que a própria estrutura molecular das moléculas que compõem manteigas e margarinas são muito semelhantes entre si; ou seja, as duas parecem certos tipos de plástico.

5) A margarina não estraga: Falso. Tanto a margarina como a manteiga devem ser mantidas sob refrigeração e têm prazos de validade. Só que sua deterioração está mais associada à oxidação da gordura, a qual leva à rancificação do produto. Esse processo é favorecido pela incidência de luz (note que o autor manda fazer o teste num local à sombra). Ambos os produtos são muito gordurosos e com baixo teor de água, não apresentando condições para o desenvolvimento da maioria dos micro-organismos deteriorantes, incluindo os bolores. Insetos como moscas e formigas podem ser atraídas por açúcares, os quais fazem parte de sua dieta, mas não serão atraídos por um produto que é basicamente constituído apenas de gordura.

Para fechar: essa hoax já existe na internet desde 2003! Isso é bem típico de Facebook: pegar uma corrente de e-mails de 10 anos atrás e transformar em compartilhamentos sensacionalistas…Quando vamos parar com essa prática?

 

Fontes:

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28 comments on “A Farsa da Margarina

  1. José Augusto Rosario da Silva

    Parabéns pelo artigo e pelo blog, estava procurando uma matéria sobre a primeira margarina comercializada no Brasil, e acabei encontrando seu artigo, muito esclarecedor, e argumentativo, usou várias fontes confiáveis e foi verificar as fontes citadas. Mais uma vez parabéns.

  2. Jose Antonio

    Muito bom o texto. Esclarecedor. Obrigado!

  3. Willians

    Prefiro requeijão

  4. Techmec Mecatronica

    Por isso que é fácil político corrupto ganhar eleições no Brasil… falam sobre serem honestos mas ninguém preocupa-se em pesquisar se é verdade ou não! Esse HOAX da margarina, bem como o do Lennon pelos evangélicos, etc, tantos outros que se espalham são exemplos. Povo brasileiro em sua maioria é acomodado e não quer saber de se informar de nada. Depois reclamam da educação e políticos que temos, e do país viver assim há mais de 30 anos!

  5. Marinalva

    Quando vejo esses testo enorme com varias informações primeiro vou ver se é verdade antes de compartilhar…
    Muito boa suas explicações….
    Parabens

  6. WLADMIR ALMEIDA

    Embora seu intento nobre e útil seja desvendar as inverdades contidas no texto, não há dúvidas que alimentos industrializados tem sua parcela de nocividade incrementada pela manipulação de quem deseja lucrar. Não gosto de margarina e quando li o texto, fui induzido pelo preconceito a espalhar o texto. Mas reconheço que não é com mentiras que podemos convencer alguém do mal contido nas coisas.

  7. Marcela

    Pedro, parabéns pelo texto e por esclarecer tamanha farsa. Parabéns pelo blog, informações muito úteis!

  8. Ticiano

    Fantástico! PARABÉNS pelo trabalho!

  9. Alexandre Oliveira

    Pedro, vivemos em um mundo de desconfianças onde a ganância impera em todos os setores, inclusive alimentício. Basta vermos notícias como, adicionarem formol ao leite. Por esse motivo entendo quando pessoas acreditam em informações como essa citada acima.

  10. Edson

    Excelente informação!
    Muito bom!!!

  11. Lucimar

    O que me diz sobre a margarina Becel?

  12. Anderson

    Recebi essa MSG pelo watts, recorrido ao google e achei essas provas!!!!!! Meu DEUS como tem gente mal informada, e pior ; Mal intencionada.
    Gostei das
    resposta, e gracas a essa resposta vou continuar comendo o meu pãozinho quente com margarina pela manhã.

  13. Diogo Chagas

    Recebi hoje via whatsapp…vim aqui, via google, e descobri este texto maravilhoso. Obrigado.

  14. Geraldo

    Como margarina desde criança e nunca tiver problema de saúde ligado ao seu consumo. Considero-me uma pessoal saudável, faço exercícios físicos regularmente, não abuso de sal, açúcares e gorduras. Gosto muito de citar uma frase do célebre Paracelso: “…a diferença entre o remédio e o veneno é a quantidade usada”.

  15. Antonio Amaral

    Achei interessante sua explicação, não vou entrar no mérito de quem está certo ou errado, mesmo porque não sou químico para saber os componentes de um alimento. Mas eu vou discordar um pouquinho, só para apimentar a discussão, ok? No caso da utilização da gordura para “engordar” aves, é passivo de verdade. Pois aumentar a massa muscular, sendo de aves, equinos, bovinos, humanos, teria que haver um injeção de alimentos ricos em carboidratos e anabolizantes. É o que faz “crescer” a massa muscular. No caso dos perus, é para engordar mesmo, pois as aves são vendidas por peso, sendo carnes, gorduras, penas, ossos, e etc. Esse é o objetivo da engorda. Se os produtores dão gordura para as pobres aves, e elas morrem, não é burrice, é teste, pesquisa, intenção de ganhar mais lucratividade.

    1. Pedro Menchik

      Muito boa a sua contribuição.
      Então, gordura é bem menos densa que músculo. Se o objetivo é vender por peso, não é muito inteligente que o animal seja muito gordo, pois isso representa muito volume para pouca massa.
      Agora, que há pesquisas e testes com alimentação animal, isso sem dúvidas. Só que claramente não é o caso da margarina, que tem suas origens documentadas.

  16. isabela

    As pessoas acreditam em cada coisa… >.<

  17. Maria Silvia Coutinho Carvalhal

    E o Valdir, então! ajuda a esclarecer, tb põe seu conhecimento a serviço público, de forma tão ética. Obrigada e parabéns.

  18. Maria Silvia Coutinho Carvalhal

    Recebi o texto Anti-margarina de um amigo que levou-o a sério. Felizmente a internet nos possibilita esclarecimentos, visões dos “dois lados” das questões que nos interessam. Em se tratando de alimentação, isso não pode faltar, para que possamos nos cuidar da melhor forma, nesse mundo tecnológico, economicamente interesseiro e cada vez menos natural em que vivemos. Grata, Pedro, por sua competente e séria intervenção em relação a essa colocação alarmista sb a margarina que não imagino a quem possa interessar. Às vacas????? aos rancorrosos???? aos inocentes úteis do sistema que “morrem” de medo e mantêm a pretenção de controlar tudo e sobreviver à vida real????…

  19. Nelson Tostes Ramos

    obrigado pelo esclarecimento, me irrita demais essas lendas da internet, respondendo à sua pergunta, “quando vamos parar com essa prática?” nunca, o povo nunca vai deixar de ser bobo…
    []’s

  20. Carol Amgarten

    Só posso concordar com Nati heheheehehe o texto “original” dá coceira… Mto bom o novo layout! bjs.

  21. Alessandra Guerreiro

    Post bem esclarecedor. Meu pai trabalhou muito tempo numa empresa que produzia margarina. Ele sempre conta que, quando a margarina começou a ganhar mercado aqui no Brasil, existia uma “lenda” que dizia que ela era feita a partir de “pó de osso” e outros ingredientes bem “criativos”.

  22. Valdir

    Pedro so para complementar teu post.
    A manteiga não tem alto indice de lactose devido a fermentação do creme por bacterias laticas e depois lavagem com agua gelada para remoção de residuos de proteinas e lactose.
    A margarina sim tem proteina lactea, pois é adicionado leite em pó ou soro de leite em po para “melhorar” o sabor da mesma. Eu pessoalmente nao indico consumo de margarina, porém o consumo de manteiga deve ser moderado, sendo assim mais saudavel em relação a margarina. Abraço.

    1. pedromenchik

      Obrigado pela correção, Valdir!

  23. Debora

    Ameei esse post Pedro….parabéns!

  24. Natasha

    Nooooossa, só de ler o texto “original” também fiquei com água na boca (já fui imaginando como vc desconstruiria os argumentos)! 🙂