Gummy Bears e a Diarreia

Ok, eu sei que eu tenho um monte de sugestões de post atrasadas na fila e que eu já postei sobre jujubas antes, mas me deparei esses dias com um negócio no Facebook e não me aguentei, vou ter que postar sobre isso


 

Não vou traduzir tudo aqui, mas trata-se de uma página da Amazon vendendo um saco de 5 lbs (= 2,7kg) da famosa bala de goma “Gummy Bears” da Haribo, só que na versão sem açúcar. A polêmica fica por conta dos reviews (por favor, tirem um tempinho para lê-los na íntegra, é diversão garantida), onde consumidores do produto relatam suas…err…experiências após ingerir o produto. Todos concordam que o gosto é bom e etc, mas o legal é o pós-consumo, no qual várias pessoas relatam ter tido diversos problemas gastro-intestinais, incluindo: cólicas abdominais, gases, flatulência, desconforto, borborigmo, inchaço e, principalmente, uma diarreia extremamente líquida, volumosa, fétida e constante. Lógico que os termos utilizado nos comentários são bem menos técnicos (e mais hilários). Este não será um post clássico de quebra de mitos: o produto realmente pode causar esses sintomas. O que eu vou tentar fazer aqui é explicar o porquê disso.

A versão diet dos Gummy Bears substitui os açúcares tradicionais das balas (sacarose, glicose, frutose, etc) por Lycasin, feita a partir da hidrogenação do xarope de glicose e/ou da hidrólise do amido. Ela é constituída principalmente de maltitol, um açúcar-álcooltipo de poliol (álcool com várias hidroxilas, -OH) que apresenta sabor doce e menos calorias que o açúcar de mesa, muito utilizado em produtos dietéticos e/ou de baixa caloria. Outros açúcares-álcoois comumente utilizados na indústria de alimentos são o sorbitol e o xilitol, principalmente em sorvetesbalas e chicletes, já que não são cariogênicos (as bactérias orais não o metabolizam) e conferem sensação de frescor/resfriamento ao paladar (pois sua dissolução na saliva é endotérmica). E diferentemente de edulcorantes como ciclamato, sacarina ou aspartame, eles não apresentam sabor residual amargo, porém contêm uma certa quantidade de calorias – ainda que bem menor do que a da sacarose.

Até aqui tudo ótimo. O problema do maltitol e de outros açúcares-álcoois é que eles podem ter um efeito laxativo (= leva a pessoa a defecar) quando consumido em excesso. Isso acontece por que o nosso organismo não é capaz de digerir a substância. Entretanto, ao contrário do que acontece com as fibras alimentares, nossa microbiota (=flora) intestinal irá metabolizar o poliol – ou pelo menos tentar. Resumidamente, as bactérias irão fermentar o composto, gerando ácidos e gases indesejáveis, que irão causar a maioria dos sintomas descritos. Já a diarreia fica por conta do efeito osmótico do maltitol: ele é um composto solúvel (apesar de não digerível) que aumenta muito a concentração no quilo (bolo alimentar quando passa pelo intestino), fazendo com que nosso corpo perca água para as fezes a fim de estabelecer o equilíbrio. Um adendo: algumas pessoas são mais tolerantes ao açúcar-álcool do que outras.

Vale lembrar que o maltitol é reconhecido como seguro (GRAS) pela legislação do EUA, que recomenda que sua ingestão diária não ultrapasse 100g/dia. O problema é que, segundo o rótulo, o produto apresenta 37g de carboidratos – boa parte é maltitol – a cada 41g do produto (=17 unidades)! O motivo de eles usarem toda essa quantidade no produto é porque o composto possui algumas funções tecnológicas além de adoçante: é também umectante, espessante e gelificante – características bastante interessantes numa bala de goma (mas não num intestino humano, diga-se de passagem) – e praticamente dá a estrutura e a consistência da bala. Enfim, se você comer mais de 45 unidades por dia, já atingirá o limite estabelecido. Pode parecer bastante à primeira vista, porém cada “ursinho” é muito pequeno (2,4g) e o pacote tem mais de dois quilos, o que dá umas mil unidades! As pessoas não costumam ter muita moderação com esse tipo de coisa, e facilmente exageram na quantidade de balas, por isso os comentários tão engraçados (e um pouco assustadores) na Amazon.

 

Fontes [em inglês]:

Estudo sobre efeitos laxativos de Lycasin e outros açúcares-álcoois

Sobre o maltitol

Sobre açúcar-álcool

Tabela nutricional do produto

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8 comments on “Gummy Bears e a Diarreia

  1. Rayanne Nayla

    Comi um saquinho de 70 gramas, quase tive um filho. Foi a pior dor de barriga que já tive!
    O pior de tudo foi que não tinha idéia do que estava acontecendo, fiquei preocupada com a intensidade da dor que estava sentindo, quando de repente deu a vontade de ir no banheiro!
    Estava na casa do meu namorado! Foi terrível! Nunca passei tanta vergonha na minha vida!
    Ursinhos do demônio.

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  5. Tatiana

    Tá mais pra MALDITOL esse negócio aí… nunca achei que teria tanta explicação científica (osmose, fibras, digestão) por trás dos gummy bears from hell! Muito bem explicado! 🙂

  6. Ricardo

    Chorei de rir com os comentários feitos sobre essas balinhas, mas como diriam: Pimenta no C# dos outros é refresco!! Achei perfeita a explicação sobre os efeitos destes edulcorantes no sistema gastro intestinal. Possivelmente uma das melhores explicações já feita por você. Hoje em dia temos certas gomas (que também são açúcares) que apesar de não terem sabor doce, podem conferir estas funções tecnológicas descrita por você, evitando assim estes efeitos indesejáveis,e em alguns casos até mesmo perigosos. Mas mais uma vez na ânsia de reduzir custos e ganhar dinheiro (quando não por pura falta de um profissional capacitado) vemos empresas negligenciando a segurança alimentar de seus produtos!!

  7. luticar

    Haha já tive muita dor de barriga com certos alimentos sem açúcar e sem gordura, como chocolates, balas, sorvetes, tudo por causa desses polióis. Agora prefiro comer a versão tradicional ou não comer. Mas cada organismo é único, então tem gente que não sente nada de mal ao ingerir esses alimentos com polióis.