Carmim de Cochonilha: Insetos na Minha Comida?

Nos últimos anos, várias empresas têm sido alvo de consumidores (principalmente nos EUA) sobre o uso do corante carmim de cochonilha, por ser derivado de insetos. Aconteceu com os iogurtes da Danone e com os frappuccinos da Starbucks. Não irei traduzir os textos na íntegra, mas basicamente os consumidores reclamam que esse tipo de coisa deveria ser proibido, que é nojento, que deveria ser escancarado no rótulo, que deveria ser substituído por outro corante, entre outras coisas

Vamos lá: o carmim é um corante natural vermelho intenso, utilizado principalmente nas indústrias farmacêuticas, têxteis, alimentícias, de cosméticos e produtos de higiene. Dentre os alimentos, ele está presente principalmente nos produtos avermelhados sabor morango ou frutas vermelhas, como bebidas, iogurtes, sorvetes, sobremesas, balas, doces, chicletes, geleias e até condimentos. Ele é obtido da fêmea adulta do Dactylopius coccus, a cochonilha – um inseto semelhante a um pequeno besouro. O animal é nativo do México e já vem sendo utilizado para obtenção de corante há centenas de anos pelos povos pré-colombianos. Não é o mesmo corante que o vermelho #40, o qual é sintetizado quimicamente a partir do carvão.

Para produzir o carmim, os insetos são obtidos numa espécie de cacto, do qual se alimentam, para depois serem secos e triturados, formando um tipo de pó. São necessárias milhares de cochonilhas para produzir alguns gramas do corante, motivo pelo qual seu uso é criticado por vegetarianos, veganos e outros defensores do bem-estar animal. Na minha opinião, esse grupos não deveriam sequer consumir nenhum tipo iogurte, frappuccino ou quaisquer outros laticínios, mas enfim, cada um com as suas crenças. Além disso, certos grupos religiosos – como muçulmanos e judeus – evitam consumir alimentos contendo o aditivo pelo fato de insetos serem proibidos na dieta de acordo com a sua fé*.

Um terceiro grupo, mais numeroso, é aquele do “ai que nojo, insetos na minha comida!” –  e esses são os que mais me irritam. Isso vem de um tabu cultural, visto que o consumo de insetos é relativamente comum em outros locais do mundo, como na China e no México, sendo que às vezes chegam as ser considerados como iguarias. Mesmo no Brasil, certas regiões consomem farofa de içá, a rainha de uma espécie de formiga saúva. Os insetos nos fornecem diversos ingredientes dentro e fora da indústria alimentícia, tais como: mel, própolis, seda, cera, remédios e até mesmo joias. Existe também um outro aditivo chamado goma-laca, feito a partir da resina da fêmea do inseto Kerria lacca, utilizado sob o nome “esmalte de confeiteiro“. É empregado como agente glaceante (=dá brilho) em jujubas e balas de goma (elas de novo!), e até mesmo como verniz para madeira.

Além dos “bichinhos intencionais”, já expliquei antes que praticamente todo alimento contém pedaços de insetos, e que é impossível eliminar, controlar ou mesmo fiscalizar isso. O importante é entender que tanto esses traços quanto os aditivos e ingredientes já mencionados não apresentam qualquer risco para a saúde humana. O carmim de cochonilha é considerado como GRAS (=seguro) pelas legislações americana (FDA), europeia (EFSA) e brasileira (Anvisa). Uma única exceção seria uma possível alergia ao corante, o que não é nem um pouco diferente do fato de existirem pessoas alérgicas a vários outros tipos de alimentos, como trigo e amendoim (que são, inclusive, alergias muito mais comuns).

Lembrando também que a Starbucks e Danone estão pagando o pato por um aditivo que praticamente todas as indústrias alimentícias usam. No Brasil, por exemplo, a Nestlé, a Batavo e a Vigor também utilizam o carmim de cochonilha em vários de seus iogurtes e também em outros produtos. E devem continuar, já que não há nada de errado com o corante. Uma coisa que eu acho bem estranha: as mesmas pessoas que criticam o carmim são aquelas que advogam pela eliminação de aditivos sintéticos nos alimentos. Mas oras bolas, não há nada mais natural do que um corante feito de insetos triturados – cadê a lógica? Não que tudo que é natural seja mais saudável ou seguro do que tudo que é artificial, mas isso já é assunto para um outro post…

 

  • Aparentemente, judeus podem comer gafanhotos, já que eles possuem “pernas”, ou algo assim.

 

Fontes [em inglês]:

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16 comments on “Carmim de Cochonilha: Insetos na Minha Comida?

  1. Cirley (tenho 60 anos de idade)

    A quantidade apresentada no meu exame de sangue para a alergia ao corante vermelho (extrato de cochonilha) é de 0,41 KU/L está na classe 1 baixo 0,36 – 0,70, a minha reação é a diarreia e tenho também intolerância a lactose: diferença menor que 20 mg/dl, que a reação também é a diarreia. Nas bulas dos remédios e nos alimentos não vem dizendo que tipo de corante tem, só a cor. Como saber? Abraços

  2. Pingback: Corante Cochonilha | Luz da meia noite

  3. Diane

    Estava à procura de informações sobre esse assunto e fiquei muito satisfeita com o conteúdo do seu texto, parabéns! Tbm gostei dos comentários que também trouxeram informações úteis! Muito bom!

  4. Talita

    Só um adendo: veganos e um grupo de vegetarianos, os lacto-vegetarianos, não consomem iogurtes de nenhum tipo.

  5. Airton Furtado

    Quando se sai em defesa de um assunto, naturalmente é a sua opinião que prevalece. Mas quando sai em defesa a grandes empresas como a Danone que dizia que o Danoninho valia por um bifinho, o teu ponto de vista não se sustenta. Danoninho nunca foi saudável e a Danone sabia disso. É um produto processado, industrializado, açucarado e totalmente inadequado, principalmente para bebês. Este maldito slogan que influenciou muitas pessoas na década de 80 e criou o mito do Danoninho associado a um alimento saudável, ideal e indispensável para bebês e o pior muitos profissionais até hoje indicam este produto para menores de 1 ano!!! Triste realidade.Mas, ATENÇÃO‼ Danoninho é um produto lácteo, pode desencadear alergias, favorecer infecções intestinais, outras patologias, e ainda, se ofertado após as refeições (sobremesa), atrapalha a absorção do ferro não-heme, favorecendo a ocorrência de ANEMIA!!! Assim como o corante ‘natural’ cochonilha, que provoca alergia a pessoas sensíveis. Assim como a urticária, erupções na pele, vermelhidão e até choque anafilático. A alergia pode ser comprovada por meio de exame de sangue. A quantidade de corante ingerida tem pouco a ver com a dimensão da reação. Há pessoas com maior sensibilidade, nas quais uma pequena quantidade da substância causa reações intensas, e outras que são mais resistentes. E o fato de não existir tratamento específico contra a reação alérgica, apenas contra os seus sintomas leves como irritações cutâneas, inchaço, coceira e urticárias. A negligência com esses sintomas menores pode ter consequências sérias. “Uma alergia pode levar ao choque anafilático, que é o fechamento das vias respiratórias”. Isso sem contar com a possibilidade de contrair renite e asma. E pior, uma pessoa ser alérgica a mais de um corante e pode haver cruzamentos entre alergias. “Uma sensibilidade a medicamentos pode ser acompanhada da sensibilidade a um corante, como os alérgicos à aspirina, que também podem ter sensibilidade em contato com alguns corantes vermelhos e amarelos”. Portanto, há de ter atenção quando se defende A ou B, e não incorrer o risco de uma defesa de interesses.

    1. Pedro Menchik

      Hum, acho que você não leu direito meu post, ou não o entendeu. Não disse em momento nenhum que Danoninho é saudável ou que “vale por um bifinho”, nem mandei alimentar recém-nascidos com o iogurte. Não tenho interesse nenhum em proteger a Danone ou qualquer outra empresa, apenas em esclarecer o que é o carmim de cochonilha e porque ele é inofensivo, contanto que não se tenha alergia ao mesmo (ponto que tanto eu como você apresentamos)

      1. Airton Furtado

        Desculpe-me Pedro, não me fiz entender claramente. Em nenhum momento insinuei que citastes que ‘Danoninho é saudável ou que vale por um bifinho’ ou que mandastes recém-nascidos comer iogurtes. Nada disso. Quando citastes que a Danone está pagando o pato por um aditivo que praticamente todas as indústrias alimentícias usam, naturalmente, eu não poderia isentar a Danone por praticar tamanha leviandade outrora. Portanto, cochonilha não é um corante inofensivo. Não ao ponto de levar ao choque anafilático. Há tantos corantes saudáveis, como o urucun, açafrão, a páprica, beterraba, etc… Porque não explorar o corante natural como antocianina por exemplo. Podem ser extraídas de frutas, vegetais e flores, e pertencem à classe de compostos que contém uma estrutura básica de 15 carbonos, conhecidos conjuntamente de flavonóides. Extraída de cascas de uva, cassis elderberry (sabugueiro). Conferindo uma infinidade de cores entre o laranja, vermelho, púrpura e azul, dependendo do meio em que se encontram. Como podes ver, opções não faltam no mercado. O que falta é interesse em oferecer algo mais saudável. Na verdade é que o cochonilha é muito barato em termos de comercialização, é muito mais prático pingar umas gotas desses corantes do que extrair pigmentos naturais onde envolve plantio, colheita, mão de obra, custo benefício, etc… É disso que eu me refiro. Um grande abraço.

        1. Pedro Menchik

          Sim, concordo que há muito potencial em várias outras fontes – e sou completamente a favor de pesquisas nesse sentido (inclusive, conheço muita gente no meio científico pesquisando sobre antocianinas e outros pigmentos). Mas assim como existem pessoas alérgicas ao carmim de cochonilha, também existem pessoas alérgicas a todos esses corantes que você citou.
          No caso específico das antocianinas, a maioria delas é termolábil, e acabam perdendo (ou modificando) sua coloração após tratamento térmico. A maioria dos produtos lácteos é pasteurizado ou esterilizado termicamente, o que torna a aplicação desses corantes inviável.
          Além disso, segundo a sua lógica, produtos contendo amendoim deveriam ser banidos, pois podem causar choque anafiláticos em algumas pessoas (alergia muito mais comum do que ao carmim, diga-se de passagem).

  6. Talita

    Olá. Por mais que você se irrite com opiniões diferentes, uma coisa é fato: nem todo mundo sabe da origem dos aditivos dos alimentos. Um vez que as pessoas saibam, elas terão direito de escolher o que ingerir ou não, considerando suas crenças e escolhas pessoais.

  7. Beatriz Gouveia

    Adorei o blog! Sou vegetariana – aspirante a vegana – e não “suporto” o radicalismo seja ele vegano ou não. Sempre gosto de pensar que qualquer pessoa escolhe o que quiser e isso não significa que ela é melhor ou pior do que ninguém. Pena que muitos pensam de forma diferente. Parabéns pelos textos e pela imparcialidade, seria ótimo se houvessem mais textos como esse por aí.

    Ótimo texto! 😀

  8. Patricia Baleeira

    Olá,
    Gosto dos seus textos e até divulgamos em nossa Fanpage.
    Porém, gostaria de complementar alguns pontos, posso? rs.
    Na agricultura a cochonilha é uma praga, por outro lado é um dos pratos PREFERIDOS da Joaninha, predadoras naturais que alimentam-se de afídeos, moscas da fruta, pulgões, piolhos da folha e outros tipos de insetos, a maioria deles nocivos para as plantas. Uma vez que a maioria das suas presas causa estragos às colheitas e plantações, as joaninhas são consideradas benéficas pelos agricultores. Apesar da grande utilidade, estes insetos sofrem ameaça dos agrotóxicos utilizados pelos agricultores em suas plantações, embora a maioria das espécies não seja considerada como ameaçadas. Por isso, seria interessante que o prato principal dela estivesse no ‘menu’, não é?
    Sobre comer insetos e o nojinho,rs.Já comi insetos e aplaudo o programa da ONU de incentivo para criação deles. Afinal, como faremos em 2030 para alimentar quase 9 bilhões de pessoas? Porém, o único detalhe é a diferença entre criação de insetos para suprir déficit nutricional e fragmentos de insetos provenientes de péssima condição sanitária, seja fabricação, fornecedores de matéria prima ou armazenamento.
    Se por exemplo, matarmos uma barata, quem virá comer? Formiguinhas! Considerada inofensivas por muitos, a rota das formigas em busca de alimento inclui : fezes, feridas, escarros, lixeiras e animais mortos. Ao passar por estes lugares, elas carregam consigo os mais diferentes micro organismos nocivos, principalmente bactérias, fungos e vírus.

    Novamente, parabéns pelo trabalho.
    😉

    1. Pedro Menchik

      Obrigado pela contribuição, Patrícia. Fique à vontade para participar sempre 🙂

  9. Alessandra Guerreiro

    Muito bom o post… por coincidência, iria sugerir um post com este assunto, pois numa conversa com uma pessoa judia surgiu o comentário…

  10. Rafael Brum

    Interessante o tópico Pedro, nem desconfiava que existia corante fabricado com insetos triturados. Parabéns pelo texto.

    Nati, não tenho comido nenhum alimento de origem animal nos últimos 3 meses, e olha que consumia bastante coisa… No primeiro mês pareceu difícil, mas depois fica bem tranquilo. Se você quiser você pode experimentar parar um dia na semana por exemplo. Abraços 😀

  11. pedromenchik

    Foi sim, Nati. Mas só por causa da polêmica da Danone.

  12. natihennemann

    Eu tenho um pouco de dó dos animais, sim, assim como das vacas, etc., mas não consigo parar de comê-los!!!!!
    Esse post deve ter sido sugerido por alguém da área, porque eu não fazia ideia da existência desse corante… 🙂