Água Mineral Radioativa na Fonte

Os rótulos de águas minerais são uma fonte (com o perdão do trocadilho) de um monte de informações estranhas e confusas. Entre elas, está a seguinte frase: “Água mineral radioativa na fonte”. Veja o exemplo abaixo:

radioativa_na_fonte

 


 

A radiação, de um modo geral, é vista como vilã por causa da ignorância de boa parte população, apesar de ter inúmeras aplicações interessantes, inclusive na indústria de alimentos (vide o post dos alimentos irradiados). No caso da água, algumas fontes contém uma certa quantidade de radônio, que é um gás nobre radioativo que se forma espontaneamente em algumas localidades a partir do decaimento de metais traços como o tório e o rádio. Mas não há motivo de preocupação: o elemento está presente apenas em uma quantidade ínfima e a maioria de suas emissões mal é capaz de atravessar a pele humana. Outro ponto relevante: a meia-vida do radônio é muito pequena, o que significa que ele já não está presente na água envasada no ato do consumo, apenas durante a captação.

Diferentemente do que muitos imaginam, a lei nem sequer exige (porém permite) que isso seja declarado no rótulo. Então fica a dúvida: porque as empresas fazem questão de escancarar isso? Algumas pesquisas apontam que a radioatividade branda do radônio é capaz de penetrar nas vias respiratórias com ações anti-inflamatórias e descongestionantes (o radônio é, inclusive, utilizado em alguns tipos de radioterapia). É uma das alegações da crenologia – o estudo das propriedades terapêuticas das fontes de águas com características específicas, como termais, sulfurosas, ferruginosas, salobras, etc. Apesar de existir um monte de baboseira pseudo-científica nesse meio, alguns efeitos têm um bom embasamento científico já comprovado. Mas vamos deixar essa discussão de lado e retornar ao foco do post.

A verdade é que, em tese, não há muito sobre o que se falar num rótulo de água mineral, pois temos um único ingrediente sem nada de muito especial. Para driblar isso – e se destacar das concorrentes – as empresas listam coisas como: minerais presentes e suas quantidades, propriedades físico-químicas e características da fonte. A radioatividade é parte desse último tópico, geralmente expressa na unidade obsoleta maches (ME) ou sua variante mais moderna Bequerel por litro (Bq/L). Outra coisa bastante citada é a temperatura na fonte: uma informação – na minha opinião – completamente inútil, pois é outra coisa que também será completamente diferente no ato do consumo.

Sobre as propriedades físico-químicas, cada vez mais elas vêm lotando os rótulos na forma de informações que a maioria da população não tem capacidade nenhuma de entender. Antigamente, era apenas o pH, que indica se a água tem caráter mais ácido ou básico, de acordo com os compostos nela dissolvidos. Por mais que existam inúmeras alegações em guerra, favorecendo ora águas ácidas, ora neutras ou alcalinas, isso pouco interfere na qualidade da água e em suas propriedades nutricionais e funcionais. Também é comum vermos o resíduo de evaporação, um parâmetro que mede a quantidade de sólidos não-voláteis totais dissolvidos na água, dado em mg/L. Já a condutividade elétrica, medida em micro-siemens por centímetro (µS/cm), está relacionada à concentração de eletrólitos presentes na água, indicando indiretamente a quantidade de sais minerais nela dissolvidos.

Ás vezes encontramos também o parâmetro turbidez, que literalmente mede o grau de transparência da água através da dificuldade da luz em atravessá-la. Isso está relacionado à quantidade de sólidos em suspensão na água, constituídos principalmente de argila e matéria orgânica. Uma grande quantidade desses compostos pode se tornar um problema quando a água é exposta à luz solar, fazendo com que certas algas se proliferem, formando aquele “lodo verde” que vemos às vezes nos garrafões de água mineral. Por fim, temos a dureza da água, que mede a quantidade do mineral Ca (ou, mais especificamente, CaCO3), e está mais relacionada às aplicações tecnológicas do líquido do que ao seu efeito enquanto bebida pura.

Por falar em minerais, esses são listados à exaustão nos rótulos de água mineral por motivos nutricionais, tanto os mais famosos (potássio, ferro, magnésio, etc.) como alguns mais inusitados (selênio, molibidênio, vanádio, etc.). Por outro lado, temos também as chamadas “águas leves“, termo cunhado pela marca Bonafont, da Danone, que representa um produto com baixo teor de sódio, indicado para pessoas com problemas de hipertensão.

No contexto dos minerais, alguns consumidores ficam assustados com o dizer “água mineral litinada” em alguns produtos, sendo que já ouvi até estórias sobre uma eventual conspiração das empresas para drogar a população, já que o lítio é geralmente utilizado para tratar problemas psicológicos como o transtorno bipolar. Na verdade, o metal não é adicionado pelas empresas, mas sim ocorre naturalmente em algumas fontes (assim como também existem águas naturalmente fluoretadas), em quantidades tão pequenas que dificilmente possam fazer algum mal (ou bem) para o consumidor. De qualquer forma, o lítio vem sendo estudado nutricionalmente como um possível micromineral, apesar de sua essencialidade ainda não ter sido comprovada.

Outra coisa que confunde os consumidores é a tal “água naturalmente gaseificada“. Isso porque em geral as água minerais se dividem em “sem gás” e “com gás”, sendo que a segunda é artificialmente adicionada de CO2 em um processo industrial idêntico à carbonatação de refrigerantes. Entretanto, além dos minerais, algumas fontes apresentam uma certa quantidade de bicarbonato dissolvido na água (isso também costuma ser declarado no rótulo), o qual se converte espontaneamente em gás carbônico e torna a água gaseificada – ainda que menos em comparação com a artificialmente carbonatada.

Bom, eu poderia ficar falando para sempre sobre água, mas acho que por hoje já chega. Para quem ainda quiser mais, vocês podem checar meus outros post sobre água do micro-ondas e sobre a água da cerveja.

 

Outras Fontes (chequem também as contidas no próprio texto) :

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7 comments on “Água Mineral Radioativa na Fonte

  1. Claudia

    Parabéns … Muito esclarecedor … Sempre me
    Perguntei sobre a tal radioativa na fonte!!! ??????

  2. gECA

    MUITO BOM O POST, PARABÉNS. INFORMAÇÃO NUNCA É DE MAIS.

  3. Luís Henrique Folli

    Sou Tecnólogo Ambiental de formação, e aprendi uma coisa na faculdade: Nunca, jamais, devemos beber a água mineral engarrafada na mesma fonte por muito tempo. Agua litinada faz bem para o cérebro, em excesso vai lhe trazer problemas pois, lítio é metal pesado. O mesmo ocorre com a irrisória quantidade de radioatividade de uma água mineral, um dia você vai desenvolver um câncer. Agua bicarbonatada, em excesso vai alcalinizar negativamente seu organismo. Prestem a atenção na análise química da água que você bebe, mas não deixe de beber dessas águas, elas fazem bem ao seu corpo.
    A diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Está dado o recado, rsrsrsrs!!

  4. Pingback: Bananas com Manchas Anti-Câncer | Alimentando a Discussão

  5. lucas

    Outra questão a ser analisada é o fato da água mineral ter validade, como uma água pode se deteriorar com o tempo ? impossível desde que ela esteja bem fechada e numa temperatura não muito alta, não tem como se deteriorar.

    1. Pedro Menchik

      Na verdade, na maioria dos alimentos a validade não está associada necessariamente à deterioração, mas sim à questão sensorial (ou seja, sabor, cor, gosto, textura, etc); Um bom exemplo são as bolachas, que ficam moles bem antes de realmente estragarem. Na água em particular, ela vai adquirindo aos poucos sabor de plástico por conta do contato com a embalagem, e pode mudar de cor também

  6. natihennemann

    Quantas coisas numa água!!!!!!!!!
    Pelo menos da fonte com radiação eu já tinha noção, mas não sabia que o termo “água leve” era por conta da quantidade de sódio… achei que era apenas uma jogada de marketing nada a ver.