frango hormônio

Frango com Hormônio

Esse é mais um daqueles posts que as pessoas vivem me pedindo e que eu vinha enrolando para fazer. Já citei o assunto de forma mais superficial no post do chester, mas agora resolvi escrever algo mais elaborado sobre o tema: Existe um boato muito conhecido de que os frangos de corte são alimentados com hormônios que promovem o seu crescimento rápido, presente não apenas na internet, mas no dia-a-dia de maneira tão forte que vai desde as filas do supermercado até as salas de espera de consultórios médicos. Isso atingiu proporções tão absurdas que as pessoas passaram a encará-lo como verdade, fazendo com que a BRF (Sadia; Perdigão) e a Aurora tivessem que fazer propagandas específicas falando que seus frangos não tem hormônios. O problema é que, quando a Fátima Bernardes vira e diz que o frango dela é criado sem adição de hormônios, isso dá uma falsa impressão de que os produtos de outras marcas não o são (ou que isso era prática comum num passado recente). Mas não é bem assim.

Na verdade, nenhum frango nacional é adicionado de hormônios, já que isso é proibido por lei no Brasil. Se você é daqueles que não confia na fiscalização e inspeção federal, saiba que o Brasil é um dos maiores exportadores de aves do mundo, e que possui clientes como EUA, Europa e Japão, os quais também têm leis impedindo a prática e são extremamente rigorosos no controle de resíduos de hormônios em alimentos. Na verdade, a confusão acontece porque existem outros animais (como peixes e bovinos) nos quais se pode injetar/alimentar com certos tipos de hormônios em países como os EUA – dentro de níveis seguros ao consumo humano, é claro. Então não, as meninas de hoje não estão entrando na puberdade mais cedo e nem se maquiando porque consomem muito “frango com hormônio” desde bebês – isso e uma bobagem.

Mas então, por que os frangos de granja crescem tão rápido quando comparados à “galinha caipira”? O principal fator que explica isso é o melhoramento genético (vide post sobre transgênicos), visto que variedades de frango vêm sendo selecionadas ao longo de dezenas de anos a fim de se desenvolver animais com maior produtividade de carne possível – eu gosto muito de fazer uma analogia com as diferentes raças de cachorro, guardadas as proporções. Outro motivo é a nutrição, sendo a alimentação dos animais controlada de forma que eles se desenvolvam de maneira rápida, saudável e visando o aumento de massa muscular em regiões como peito e coxas, compatível com sua genética. Temos também fatores como ambiente, manejo, higiene e sanidade, todas aperfeiçoadas após anos de pesquisa intensa, visto que o frango de corte é um dos produto cárneos mais consumidos e estudados do mundo.

Nesse sentido, um suposto hormônio de crescimento soaria mais como uma pílula milagrosa “à la Polishop” (que nem esses produtos charlatões de emagrecimento que vemos na televisão). O fato é que muitos estudos apontam que injetar dito hormônio no frango não funciona, já que o crescimento depende de diversos outros fatores devido à complexidade do metabolismo animal. Mesmo se isso funcionasse, traria mais danos do que benefícios aos animais, pois as aves já foram justamente selecionadas para crescer beirando seus limites fisiológicos e, se forçadas muito além disso, poderiam desenvolver problemas nas articulações ou mesmo insuficiência cardíaca, gerando eventuais mortes – que representariam prejuízos aos produtores. Temos mais um porém: hormônios são extremamente caros (qualquer pessoa que faça tratamento hormonal vai entender o que eu estou falando): 5 mL podem custar em torno de R$200,00, o que é muito mais do que o preço do próprio frango.

Além disso, o hormônio de crescimento é uma proteína e deve ser injetada na corrente sanguínea para ter efeito, pois se for ingerida na ração, será digerida e decomposta (e não terá efeito nenhum) – é por isso que não existem “pílulas de insulina”, por exemplo. Imaginem o quão inviável seria para um grande produtor injetar o composto em centenas de milhares de aves, várias vezes ao longo de suas vidas – e ainda conseguir controlar isso. Na verdade, os únicos hormônios que funcionam se consumidos oralmente são os esteróides, utilizados por algumas pessoas como anabolizantes; porém, esses dependem de atividade física intensa para dar resultado. Lembrem-se que o frango confinado é bastante sedentário e não exercita o voo, como já vimos em outro post. Ou seja, o uso de anabolizantes na ração não faria crescer o peito da ave, que é justamente um dos principais objetivos da avicultura.

Queria deixar claro uma coisa: não estou falando que os frangos não têm hormônios! Todos os animais superiores têm um sistema hormonal ativo: os compostos ocorrem naturalmente, sendo produzidos em certos órgãos-chaves, transportados pelo sistema circulatório e podendo se acumular em depósitos de lipídeos. Apesar de a carne em si ser músculo, é muito comum que ela contenha parcelas de gordura, as quais podem trazer alguns hormônios naturais – mas isso não é motivo de preocupação. Por exemplo, 100 g de gordura de frango têm em torno de 2 ng de estrogênio, que é muito menos que a quantidade presente na mesma porção de batata (225 ng) ou de sorvete (520 ng). Na verdade, uma criança do sexo masculino antes da puberdade (que é o tipo de ser humano que menos fabrica o hormônio) produz  em torno de 41500 ng de estrogênio por dia. Ou seja, ele teria que comer uma quantidade absurda de frango diariamente para que o hormônio em sua dieta tivesse qualquer efeito em sua saúde.

Por fim, queria abordar de leve algumas outras diferenças que as pessoas costumam apontar entre o frango de granja e a galinha caipira, além da questão do crescimento. A primeira é a quantidade de gordura – que é maior na ave criada de forma extensiva, tanto pela questão genética quanto pelo fato de essa galinha ser abatida mais velha, fazendo com que os músculos de sua carcaça tenham menor porcentagem de água (e, consequentemente , mais gordura) – assim como ocorre com diversos animais, incluindo o homem. Outro ponto é a questão sensorial: o sabor, o aroma, a textura e a cor das aves podem variar muito. Isso também está relacionado aos aspectos anteriores, mas aqui a nutrição faz bastante diferença: a galinha caipira consome alimentos como milho e alfafa no lugar de ração, o que faz com que sua carne fique mais amarelada e com sabor característico. Por ser mais velha e ativa, seus músculos também ficam mais firmes, podendo se refletir numa textura mais dura que a do frango industrializado.

 

Fontes:

spacer

15 comments on “Frango com Hormônio

  1. Pingback: Bananas com Manchas Anti-Câncer !

  2. Ronalia

    Tenho alergia a hormônio, e quando comi frango tenho crise alérgica, como você pode explicar isso.

    1. Pedro Menchik

      Boa tarde Ronalia,
      Primeiramente, não existe uma única substância chamada “hormônio”, mas sim um conjunto de substâncias com diferentes estruturas químicas e funções. Você talvez tenha descoberto alergia a algum hormônio específico, provavelmente presente em pílulas anticoncepcionais ou em algum tratamento hormonal que tenha realizado em sua vida.
      Alergias são específicas, mas pessoas podem ser alérgicas a mais de uma coisa. No caso do frango, alergia a alguma proteína particular da carne da ave é bastante rara, mas não impossível. Mas provável é que você tenha alergia a amoxicilina, que é um antibiótico de uso veterinário empregado na criação avícola. Geralmente, ele está presente em quantidades residuais muito baixas para apresentar problemas a um adulto saudável; porém, se você realmente tiver alergia ao composto, qualquer quantidade mínima pode causar uma reação.
      Outra possibilidade é que você seja alérgica a outra coisa que tenha entrado em contato com o frango, tais como temperos, outros alimentos ou até mesmo louças e utensílios que tenham entrado em contato com os mesmos. É importante identificar se a sua alergia é realmente ao frango ou não. Sugiro consultar um médico alergista para ter certeza.
      Abraços!

    2. Jaedson Barbosa Serafim

      Cara, como você está vivo??? Você tem milhares de vezes mais hormônios que uma galinha e tem alergia??? Como assim O.o???

  3. Pingback: Bananas com Manchas Anti-Câncer | Alimentando a Discussão

  4. Victor

    Oi Pedro, tudo bom cara?

    Tem uns amigos meus que nao acreditam que não existem hormonios nos frangos, mesmo dps de ler este teu artigo.
    Tu tem algumas referencias de artigos que comprovem isso ? pra eu esfregar na cara deles ..kkkk!
    abraços

  5. Cintia Kawasaki

    Mto bom o post! Eu achava q tinha hormônios nos frangos de granja, e por isso o gosto era diferente das galinhas caipiras. haha.
    Valeu, Mench. Sempre mto esclarecedor!

  6. Karin Calvinho

    Os frangos costumam receber antibióticos, no entanto (afinal doenças são transmitidas muito rápido em espaços confinados). Verdade que esses antibióticos podem levar à resistência a eles pelas bactérias do consumidor?

    1. Pedro Menchik

      Realmente Karin, os animais devem cuidadosamente tratados contra certas doenças que poderíam afetar a produção e a segurança. Utilizam-se antibióticos principalmente para promover uma limpeza no sistema digestório das aves. É claro que isso é feito dentro dos limites regulatórios, já que o abuso de antibióticos pode levar à seleção e desenvolvimento de cepas bacterianas resistentes (além de ser caro!). De qualquer forma, eles param de ser administrados 2 semanas antes do abate para dar tempo de ser metabolizado e excretado, de maneira que não sobram resíduos na carne. Esse post fala um pouco sobre isso: http://www.docampoamesa.com/2011/03/hormonios-x-frango.html

      1. Karin Calvinho

        Obrigada pela explicação! =)

  7. Viviane

    Mais claro, impossível! Parabéns pelo texto!

  8. Carol Amgarten

    FInalmente um esclarecimento em relação a esse assunto! Sinceramente, sempre desconfiei que isso não tinha muito sentido heheheehe Mto bom!

  9. natihennemann

    Ok, esse post foi surpreendente pra mim! Eu nunca nem tinha questionado esse tipo de afirmação. Realmente achava que havia algum tipo de hormônio a mais nas carnes (frango, boi, porco). Bem esclarecedor!
    Adorei a parte em que vc fala que o hormônio não pode ser ingerido (pode, mas não funciona como hormônio se for comido), pois é super comum ouvirmos que a ração desses gados de corte contêm hormônios!

    1. Pedro Menchik

      Nati, acho que você está confundindo um pouco as coisas. Eu falei que FRANGOS não têm hormônios adicionados na sua criação, mas isso é relativamente comum para gado bovino, por exemplo. Sobre ingestão, isso só vale para os hormônios que são proteínas. Os hormônios que são esteróides funcionam se administrados por via oral.