Ades com Gosma

O leite de soja AdeS é um produto que já carrega uma boa cota de polêmicas, principalmente pelo episódio da soda cáustica, além das controvérsias naturalmente relacionadas à própria soja. Nos últimos anos, alguns consumidores têm relatado encontrar uma espécie de “gosma” no interior das embalagens da bebida, geralmente constatada após a identificação de sabor e aroma estranhos durante sua ingestão. Os casos não são exclusividade do produto da Unilever, sendo que relatos semelhantes já foram feitos em relação a concorrentes e até mesmo para outros tipos de bebida, como néctares e sucos Del Valle (Coca-Cola) e água de coco Kero Coco (PepsiCo). Geralmente, os clientes também reclamam do atendimento ruim e descaso por parte das empresas, que alegam não ter culpa e não apresentam soluções satisfatórias aos requerimentos.


 

Bom, vamos à pergunta inicial: O que é essa gosma? Algumas pessoas pensam se tratar de um corpo estranho adicionado (intencionalmente ou não) durante o processamento das bebidas: talvez um pano, papel ou plástico ou até uma mortadela. Essa possibilidade é completamente nula, já que as indústrias empregam o sistema de envase da TetraPak, no qual todos os filtros e aberturas têm dimensões milimétricas que impossibilitariam a entrada de um objeto desse porte. Na verdade, a “gosma” é uma colônia de fungos, que pode se desenvolver posteriormente, a partir de um único esporo microscópio. Mesmo assim, o envase é feito de forma completamente hermética, no qual a bebida sobre tratamento térmico a altas temperaturas e as embalagens são esterilizadas com peróxido de hidrogênio, evitando qualquer contaminação microbiana. Então a empresa realmente tem razão ao dizer que isso não ocorreu durante a fabricação.

Isso nos leva à próxima pergunta: como e quando esse fungo entra no produto? As embalagens da TetraPak são muito interessantes por serem uma combinação de papel, polietileno e alumínio, que juntos proporcionam um recipiente funcional que serve como barreira à luz, à umidade, às trocas gasosas (principalmente entrada de oxigênio) e aos micro-organismos. Isso desde que estejam intactas, é claro. Infelizmente, eu trabalhei pessoalmente tanto com embalagem quanto com estoque e distribuição de bebidas cartonadas, e posso atestar que não há o devido cuidado no manuseio dos produtos, fazendo com que sofram quedas e choques desnecessários. Algumas vezes, essas batidas podem gerar micro-furos em uma ou mais camadas das “caixas de suco”, imperceptíveis a olho nu, porém grandes o suficiente para a passagem de um esporo fúngico. E isso é algo que pode ocorrer desde a própria armazenagem na empresa até o uso pelo consumidor, passando pelo varejista e toda a cadeia distribuidora.

E qual o problema nisso? Quando o esporo chega no interior da bebida, ele se encontra num ambiente úmido, escuro, sem predadores nem competidores, e cheio de açúcar – condições ideais para o crescimento e multiplicação dos fungos. Aos poucos, esses vão fermentando o açúcar do produto e gerando ácidos, álcoóis e outros compostos, o que explica o gosto e odor esquisito do líquido. Na verdade, o micro-organismo não é patogênico (ou seja, não traz riscos a saúde), mas sim deselegante deteriorante, pois acaba com a qualidade sensorial e nutricional do produto. Fazendo mal ou não, ninguém quer ter que conviver com um bolor nesse alimento, então deve-se sim fazer uma reclamação formal e exigir uma posição da empresa. Ainda que ela não tenha culpa diretamente, é responsável por todos seus produtos vendidos e tem que agir junto a seus parceiros distribuidores e varejistas para tentar minimizar esse tipo de ocorrência.

O que mais a empresa pode fazer? Infelizmente, não muito. Ao lermos a lista de ingredientes do AdeS, vemos que há aditivos como acidulantes, estabilizantes e aromatizantes – mas nada de conservantes, o que o torna mais suscetível a essa contaminação no caso de um eventual micro-furo. Ou seja, se os consumidores pedem por produtos cada vez mais livres de aditivos da indústria química, eles têm que estar preparados para certas consequências dessa ausência – igual quando compramos certos vegetais orgânicos e nos deparamos com larvas de insetos. É preciso “colocar na balança” o que é preferível: alguns poucos casos com fungos deteriorantes ou todas as bebidas com algum tipo de composto com função preservativa, como o benzoato de sódio? Em relação à embalagem, o sistema de envase da TetraPak já é um dos mais modernos, seguros e consolidados no mundo inteiro (apesar de certas lendas urbanas) – sendo difícil pensar em qualquer mudança que possibilite uma melhoria expressiva nesse sentido.

Como lidar? Ainda que tenhamos uma meia dúzia de casos na mídia, isso ainda pode ser considerado um problema pontual diante das milhares de bebidas cartonadas produzidas no Brasil – então deixar de consumi-las por esse motivo me parece um tanto drástico (mas existem outros). O ideal é sempre checar as caixas do fundo à tampa, evitando comprar produtos cujas embalagens estejam violadas, amassadas e/ou rasgadas, principalmente quando tiver líquido vazado visível. Consuma o produto sempre dentro do prazo de validade e atente às recomendações de temperatura e local de armazenagem, indicadas no rótulo. Caso esteja desconfiado, abra o alimento e despeje o líquido numa jarra transparente, verificando também o interior da embalagem esvaziada. Se sentir sabor ou aroma estranhos, melhor suspender o consumo e comunicar à empresa responsável pelo produto, ou até mesmo ao Procon.

 

Fontes:

<< Caro Pedro,

 Abaixo seguem as respostas da Tetra Pak às suas perguntas.

A presença de um corpo estranho em um produto processado e envasado em sistemas da TetraPak não é possível. Durante o processo de tratamento térmico o alimento passa por um filtro com orifícios de diâmetro entre 1 a 3 milímetros. Antes do envase o produto ainda passa por um sistema de válvulas, cuja abertura é inferior 1,0 cm. A embalagem, por sua vez, antes de receber o produto, passa por uma banheira de peróxido de hidrogênio a 70°C onde é completamente lavada, esterilizada e passa por rolos espremedores cuja folga é inferior a 4 mm. O transporte do produto do tratamento térmico até o envase acontece em sistema hermeticamente fechado, sem qualquer contato com o ambiente externo.  O sistema de envase asséptico é  desenvolvido para impedir a penetração de qualquer corpo estranho, inclusive microrganismos de dimensões inferiores a milésimos de milímetro. Lembramos ainda que o sistema possui dispositivos que impossibilitam a produção diante de falhas que venham a comprometer a qualidade do produto.  Finalmente, ressaltamos que em muitos casos o produto pode passar por um equipamento de homogeneização onde é forçado a passar por uma abertura de 0,1 mm, a uma pressão de aproximadamente 200 bar.

Os sistemas de processamento e envase asséptico de bebidas da Tetra Pak foram desenvolvidos para garantir a esterilidade comercial do alimento. Isso significa que após o tratamento térmico e envase asséptico encontram-se  livres de microorganismos patogênicos ou deteriorantes  capazes de se desenvolverem em condições normais de não refrigeração, mantidas durante a distribuição e a estocagem. Desta forma, a bebida mantém suas propriedades nutricionais, em segurança, durante seu prazo de validade até que seja aberto. As tecnologias de processamento térmico e envase asséptico estão há muito consolidadas e são utilizadas pelas indústrias de alimentos em todo o mundo, que oferecem diariamente uma grande quantidade de produtos seguros aos consumidores.

A embalagem longa vida da Tetra Pak é composta por papel, plástico e alumínio. Tais elementos não foram escolhidos ao acaso. Sua combinação impede a entrada de luz, água, ar e microorganismos, mantendo as características originais dos alimentos como sabor, valores nutricionais e aromas. De dentro para fora: são duas camadas de polietileno que evitam qualquer contato do alimento com as demais camadas protetoras da embalagem. Uma camada de alumínio, cuja função é evitar a passagem de oxigênio, luz e microorganismos, e uma quarta camada de polietileno. A quinta camada é de papel que confere resistência à embalagem, além de receber a impressão com as informações de rotulagem e finalmente, uma sexta camada de polietileno, que protege contra umidade externa. IMPORTANTE: a integridade da embalagem é fundamental para a manutenção da condição de esterilidade comercial do produto. Caso haja algum rompimento das camadas protetoras da embalagem, o alimento pode sofrer contaminação.

Com relação aos corpos estranhos encontrados em embalagens, nada se pode afirmar sem uma análise detalhada desses produtos. O consumidor deve entrar em contato com a indústria produtora para que essa possa dar uma resposta, após analisar não apenas o produto mas, os dados sobre o lote da produção a que ele pertence. 

Permanecemos à disposição.

Atenciosamente,

Andreza Rodrigues >>

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5 comments on “Ades com Gosma

  1. Elvis Fernandes

    Já achei esse mesmo “fungo” igual a imagem postada no suco natural greenday v+, na época passei um email com fotos para o SAC deles e nem responderam, cheguei a guardar a caixa por um bom período na geladeira, com intuito deles buscarem para análise e claro acabei jogando fora. Consumia o suco de uva deles, questionei que estava vazando entre a tampa e a caixa, a cola usada para prender a tampa não estava aguentando a pressão e vazava; me responderam que estariam resolvendo esse problema, recolhendo o lote, realmente não percebi mais esse problema. Foi quando resolvi experimentar o suco de frutas + vegetais greenday v+, como de cara achei esse corpo estranho e nunca obtive resposta, deixei de consumir. Hoje lendo esse blog, ficou claro que não é só com a marca.

  2. natihennemann

    Muito bom o post, a impressão que fica quando algo assim acontece é que realmente é problema no envase, ou seja, no processo de produção! Dessa maneira, a culpa (responsabilidade) seria da empresa. Legal saber que isso não é possível, que é um processo feito com todo cuidado! O problema então é no armazenamento e no transporte – o que não necessariamente isenta a empresa de responsabilidade.

  3. Julie

    Gostei Mench!! ^^

  4. Carol

    Muito interessante! Conheço a marketeira da marca Ades hehehe caso queira algum esclarecimento da parte deles, é só falar! Bjs.

    1. Pedro Menchik

      Acho que por enquanto não precisa Carol! 🙂